junho 16, 2009
Betty Mindlin – Respeito ao indígena

Betty Mindlin
Antropóloga, com doutorado pela PUC-SP, e economista, com mestrado pela Universidade de Cornell (EUA), Betty Mindlin trabalha há anos em projetos de pesquisa e apoio a numerosos povos da Amazônia e outras regiões. Seus assuntos prediletos são mitos, escrita, oralidade, música e apoio a professores indígenas Atuou também na área de direitos reprodutivos, direitos dos povos, diversidade cultural, educação diferenciada, saúde, ambiente e demarcação de terras indígenas. Publicou em português sete livros de mitos, em co-autoria com narradores sem escrita, nascidos antes do contato com o homem branco. O mais conhecido é Moqueca de maridos (1997), traduzido em várias línguas. Dedica-se atualmente a escrever e registrar com professores e narradores indígenas a sua tradição e a sua música, em mais de dez línguas, procurando criar um sistema para devolver às comunidades e aos jovens todos os registros gravados em pesquisas passadas. Descreve suas primeiras viagens em Diários da floresta (2006), também traduzido para o francês.
Como começou o envolvimento com o mundo indígena?
Betty: Trabalho com os índios desde 1976 e, na Amazônia, desde 1978, quando fui conhecer os Suruí, em Rondônia, que tiveram o primeiro contato com o homem branco em 1969. Eles passaram a viver no posto da Fundação Nacional do Índio, a Funai, em 1973, e eu estive lá cinco anos depois. Vi então um povo que não usava roupa, só se alimentava de suas comidas tradicionais e vivia em ocas. Foi um deslumbramento.
Como surgiu o convite dessa primeira viagem?
Betty: Foi por intermédio da Carmem Junqueira, minha orientadora de doutorado, e pelo sertanista Apoena Meireles. O pai dele era um homem de esquerda e queria uma antropóloga engajada na causa indígena para lidar com os Suruí. Por isso, convidou a Carmem. Ela, mais cinco antropólogos e eu havíamos feito um projeto com índios em São Paulo com alguns recursos financeiros oficiais, mas, na época da ditadura militar, fomos expulsos. Como ainda tínhamos algum dinheiro, a Carmem procurava um lugar para fazer pesquisa. Ela decidiu estudar os Cinta Larga, povo que também tivera contato muito recente com o homem branco. Eram do Mato Grosso, a 200 km do lugar onde estavam os Suruí, que eu fui conhecer. O Apoena se entusiasmou com a idéia de ter antropólogos por perto, pois nenhum deles ainda havia conhecido os Cinta Larga ou os Suruí.
E o primeiro contato? Como foi?
Betty: Em Diários da floresta, conto essas viagens iniciais e pesquisas de campo. A primeira vez que os vi foi a experiência mais forte da minha vida. Fomos com o Apoena e dois outros indigenistas, hoje famosos, Aymoré Cunha da Silva e Zé Bel. A Carmem, o Abel de Barros Lima, com quem ela era casada nessa época, e eu descemos de avião no Posto Sete de Setembro. Fomos cercados por uma multidão de homens e mulheres sem roupa rindo e fazendo muito barulho. Visitamos muito povos de avião, como os Gavião, Zoró, Cinta Larga e Suruí. Tive uma paixão a primeira vista por estes últimos talvez porque o Apoena gostava muito deles e tinha feito o primeiro contato, junto com o pai, Francisco Meireles, em 1969. Foi uma simpatia mútua. Carmem sempre diz que combinávamos porque somos muito expansivos e falantes. O povo com o que ela trabalhou, os Cinta Larga, eram bem mais quietos e demorou muito tempo para que quebrassem o gelo com ela, mas também são interessantíssimos. No ano seguinte, em maio de 1979, fiz a primeira viagem para ficar com os Suruí. Fui apresentada pelo chefe de posto aos vários chefes e ele queria me acompanhar em cada visita. Não aceitei. Disse que preferia ir sozinha falar com cada índio. Meu primeiro contato foi com um chefe que se tornou um grande amigo. No ano anterior, em uma guerra com o povo Zoró, ele tinha acabado com uma família inteira numa espécie de Guerra de Tróia por uma mulher. Eu estava tão fascinada com esse universo que não me preocupava nem um pouco com isso e não quis que ele me acompanhasse para conhecer a roça de cada família. Queria preservar aminha autonomia. Pelas minhas leituras e experiência com índios em São Paulo, embora diferentes, por serem bóias-frias, já sabia que havia muitas chefias e rivalidades. Meu método de trabalho com os índios, porém, não é colar em um grupo só. Prefiro agir assim até em uma festa, reunião ou oficina. Gosto de conhecer todas as pessoas presentes. Se você estiver em um povo de dez mil pessoas, ou mesmo mil, como os Suruí hoje, é difícil conhecer todo mundo. No final dos anos 1970, no entanto, eles eram 350. Dava para conhecer todas aquelas vidas. Era como estar no centro de uma comédia humana. Era essa a impressão que eu, grande leitora de Balzac, tinha ao circular pelas aldeias. Fiz questão de conhecer todas as roças com cada pai de família, que tem várias mulheres. Nem me passou pela cabeça que isso pudesse ser problemático, como percebi depois. Eu era bem jovem…
‘Diários da floresta’ funciona como uma crônica?
Betty: É um diário mesmo. Eu o escrevia todas as noites, depois de trabalhar na roça, porque, à noite, ficávamos acordados, ouvindo música, vendo rituais e conversando. Durante o dia, vivia com o meu caderninho, anotando palavras e o que me passava pela cabeça, pois a emoção era tão grande, que eu não a queria perder. À noite, eu o reescrevia para dar um pouco mais de coerência. Os textos foram escritos até 1983, e só os publiquei em 2006. Nesse período, fiquei reescrevendo e reordenando. Procurei transmitir a emoção do momento e, ao mesmo tempo, elaborar um pouco mais o texto.
E o seu envolvimento com o objeto livro?
Betty: A produção começou com a imersão no povo Suruí e com a experiência de escrita do meu diário. Como cresci no meio de livros, sempre quis escrever. Tive, com minhas viagens um assunto, que não era ficção, mas que me permitia inventar algumas coisas. Diários da floresta é o primeiro livro que não faço junto com os índios, embora o deva a eles. Minhas outras obras são livros de mitos indígenas.
O estudo de mitos gerou toda uma produção…
Betty: Faço a tradução do oral para o escrito de mitos de cerca de dez línguas indígenas. É um tema sem fim, porque há mais de 200 povos e línguas no Brasil. Estou fazendo um trabalho com uma lingüista interessantíssima, Sueli Cabral, de Brasília. Ela está querendo me levar para outros povos. O que quero fazer é dar a mais gente acesso a esse universo fantástico que eu tive o privilégio de conhecer. Hoje, os índios estão filmando a si próprios e estão escrevendo, mas, quando comecei, era só eu que ouvia os índios. Comecei a gravar e a registrar. É um material precioso para eles, porque algumas gerações já não estão mais entre nós. Tento passar para eles registros em Cds. Infelizmente, só fiz gravação de som, não de imagem. Não sabia como fazer e era uma época de dificuldade muito grande para fazer pesquisa.